Como ressignificar o que já faz parte da nossa cultura? Para Airon Martin, diretor criativo da Misci, a resposta está nos códigos brasileiros que carregam memória, afeto e impacto social. No segundo episódio da série Comunicando a Moda Brasileira, a Badauê conversa com ele sobre percepção global, união no mercado e o que faz do gingado nacional um diferencial competitivo.
Airon defende que a criatividade brasileira não precisa inventar a roda, mas ressignificar símbolos já enraizados em nosso cotidiano. Um exemplo é o filtro de barro — lembrança da casa da avó, mas também peça fundamental para a saúde pública do país.
“É clichê? Sim. Mas é a partir desse clichê que eu consigo criar algo desejável globalmente”
⎯ Airon Martin, Diretor Criativo da Misici
Para o diretor criativo, fugir desses códigos seria negar a própria história. O desafio está em transformá-los em produtos que dialoguem com o mercado internacional sem perder a força cultural que os origina.
Comunicação Verbal: Luxo que Fala
Na Misci, tudo comunica — das campanhas à trilha sonora da loja. Airon aposta em um luxo transparente, conectado às vozes que compõem a cultura brasileira.
“A Misci é verbal. Isso incomoda quem espera do luxo um silêncio francês. Mas o meu luxo é outro: é a banda Calcinha Preta tocando na loja, são as Irmãs de Pau cantando a própria história no desfile. Nada mais luxuoso que a verdade.”
⎯ Airon Martin, Diretor Criativo da Misici
Para ele, a tendência mais forte da comunicação hoje é a transparência: mostrar o processo, as referências e os sons que fazem parte da criação.
Moda Brasileira ≠ Subcategoria
Airon questiona o rótulo “moda brasileira” como se fosse necessário um empurrão para existir no mercado global.
“Moda é moda — e roupa é roupa. Não precisamos de subcategorias como ‘moda nacional’ ou ‘moda autoral’. Toda moda verdadeira é, por natureza, autoral.”
⎯ Airon Martin, Diretor Criativo da Misici
Ele lembra que selos como Made in Italy ou Made in France nasceram de projetos de Estado e defende que o Brasil precisa construir uma percepção semelhante: vender produtos com identidade, valor agregado e impacto social.
Coletividade x Competição
Para além da criatividade, o que falta ao mercado brasileiro, segundo Airon, é união.
“Muitas vezes, o fracasso não está na falta de talento, mas na falta de acesso. A vitória do outro não deveria ser sentida como derrota pessoal. Precisamos reconhecer a direção criativa como profissão, e não apenas como um papel imposto ao empreendedor.”
⎯ Airon Martin, Diretor Criativo da Misici
Ele relembra experiências de troca e colaboração entre marcas como uma via necessária para fortalecer a moda nacional de forma coletiva.
Designer x Artista
Airon se define como diretor criativo com olhar de designer. Isso significa equilibrar desejo, estratégia e história sem cair na caricatura.
“O papel do designer é entregar para a sociedade aquilo que ela quer — ou que nem sabe que quer. Meu trabalho é contar o Brasil sem reduzi-lo a estereótipos, mas em diálogo com códigos globais.”
⎯ Airon Martin, Diretor Criativo da Misici
O Gingado que Dança com a Música
Se Rener Oliveira descreveu o gingado como persistência e invenção, Airon vai além: para ele, o gingado brasileiro é a capacidade de adaptação.
“A Misci agacha no quadradinho e sobe sarrando. Esse é o gingado: não é um movimento fixo, é a capacidade de mudar conforme a música. Se eu me coloco acima, perco a conexão — e paro de ouvir a batida.”
⎯ Airon Martin, Diretor Criativo da Misici
Comunicar com Verdade
Assim como na estreia da série, a reflexão de Airon Martin mostra que comunicar moda é tão essencial quanto criá-la. Não basta falar de estética ou tendência: é preciso contar histórias com coragem, memória e propósito.
“O Brasil tem potência criativa, mas precisa parar de se enxergar como subcategoria. O luxo não está na aparência — está na verdade.”
⎯ Airon Martin, Diretor Criativo da Misici
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