A potência do cinema cearense
e a construção da Hollywood do Sertão
Dois filmes cearenses chegam ao Festival de Berlim 2026: Fiz Um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques, e Feito Pipa, de Allan Deberton. A presença dupla não é acaso. É resultado de um ecossistema criativo sólido, construído com risco, continuidade e organização coletiva.
O cinema cearense atravessa um momento histórico de projeção nacional e internacional
Reconhecido por sua força poética e pela relação profunda com a cultura popular, esse cinema se construiu a partir de uma tradição de resistência estética e de experimentação contínua.
O resultado é uma cinematografia jovem, autoral e inventiva, que hoje se afirma como um dos polos audiovisuais mais relevantes do país.
Quixadá é um dos territórios mais filmados do Brasil
Ao longo das últimas décadas, mais de 60 longas-metragens passaram pela região, atraídos pela paisagem, pela luz e pela escala do sertão central.
O que se constrói ali não é um movimento espontâneo, mas a possibilidade de permanência. Quando a recorrência se transforma em continuidade, o território deixa de ser apenas cenário e passa a operar como plataforma de linguagem.
Cinema cearense no Festival de Berlim 2026
Em 2026, a presença cearense na Berlinale atinge uma dimensão inédita.
Fiz Um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques, Feito Pipa, de Allan Deberton, e Rosebush Pruning, dirigido por Karim Aïnouz, integram diferentes seções do festival — este último em competição pelo Urso de Ouro.
São três filmes dirigidos por cearenses, evidenciando não apenas obras isoladas, mas a maturidade de uma formação cultural capaz de operar em múltiplos contextos e escalas.
Entre as obras que materializam esse percurso está
Fiz Um Foguete Imaginando que Você Vinha, dirigido por Janaína Marques
O filme se constrói como um road movie do inconsciente, articulando memória, delírio e imaginação em uma jornada íntima, onde experimentar a forma se torna um gesto de sobrevivência.
A linguagem nasce do corpo, da paisagem e da lembrança, reforçando uma relação orgânica entre experiência subjetiva e território.
Sustentar esse tipo de cinema exige continuidade, articulação e risco
Na trajetória de Maurício Macêdo, esse trabalho se organiza como um projeto de longo prazo. Sua atuação articula filmes, equipes e territórios, criando permanência onde o audiovisual brasileiro costuma operar por exceção.
Produzir, nesse contexto, é criar as condições materiais, estruturais e coletivas para que o cinema exista e permaneça no lugar onde se forma.
Filmes, parcerias e trajetórias em festivais internacionais: Greta dir. Armando Praça | Berlinale, 2019 Motel Destino dir. Karim Aïnouz | Cannes, 2024 Dormir de Olhos Abertos dir. Nele Wohlatz | Berlinale, 2024 Bem-vinda a Quixeramobim dir. Halder Gomes | 2022
“Produzir no Ceará é um gesto político e estético.
Meu compromisso é criar condições reais de trabalho no território, sem abrir mão de ambição artística.
Acredito num cinema que nasce do contexto local, mas dialoga com o mundo, afirmando linguagem, processo e diversidade como valores centrais.”
⎯ Maurício Macêdo, produtor
Ao articular filmes, equipes e territórios ao longo de diferentes projetos, a Moçambique Audiovisual atua como uma das estruturas centrais desse ecossistema criativo
Seu trabalho transforma produção em continuidade, conectando formação, criação e circulação, e sustentando um modo de fazer cinema enraizado no Ceará, com abertura real para o diálogo internacional.
O Ceará não aparece no cinema por exceção
Ele se afirma como território de criação, permanência e invenção.
Um lugar onde o cinema se organiza como sistema, não como milagre.
Onde a linguagem nasce do chão, do corpo e do tempo.
O cinema cearense constrói caminho — e segue em movimento.